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Mensagens

Dez (ten)

Eras um pássaro, não eras um pássaro? Não eras? Eras o quê então se não eras um pássaro? Eras enorme, eu bem te vi. Enorme de pés e mãos. Eu bem te vi como eras. Eras um pássaro gigante. Que espécie de pássaro gigante eras tu?

9

("Djin-Djin. Quando roubaram o coração ao Cabeça de Ovo caíu do céu uma chuva dourada". Da série Ararararax. Acrílico sobre tela, 2005)

Como sabia que vinhas preparei o teu lugar junto dos outros. Comprei duas buchas para a broca número oito, nivelei os traços e furei. Apertei dois parafusos enquanto mordia a língua no lugar dos buracos e esperei que chegasses. Por fim, já em casa, depois de todos os salamaleques e sorrisos de quem vê chegar quem esteve longe durante muito tempo, pendurei o "Cabeça de Ovo" mesmo ao lado da "Tintoretta". Aqui estás, novamente, cansado e exausto de estar escondido, mas penso que feliz. Não te preocupes com mais nada, deixa rolar o fio do mundo pelo teu corpo. Olha, a Lima ainda dá frutos amarelos, e no terraço existem novidades sem conta de que amanhã te porei a par.

Oito e meio (Eight and half)

Às seis da tarde o dia parecia primaveril. O solarengo momento esticou-se para lá das seis e quase bateu nas sete. Como roçou não chegou a tocar, acabou-se ali o instante, paciência. Amanhã haverá mais daquilo e mais longo, é verdade. Mas não me dei por vencido. Fechei os olhos e o dia continuou cá dentro como o vi lá fora. É tudo uma questão de pensar azul e brilhante, azul e brilhante, azul e brilhante, com ritmo sincopado como se fosse uma máquina de zurzir lenta. Os dias assim deixam-me sempre o olhar perplexo, tão preso a tudo que mal ouvi o que me perguntaram, "para que lado fica o Areeiro?". Lamento, respondi, estou a ver o Sol, agora não posso. Mesmo que soubesse a direcção a tomar não poderia ter respondido, não poderia dar uma resposta precisa, estava cheio, de boca cheia, com os olhos presos a tudo.

Oito (Eight)

("O Jardim dos Loucos" - Coisa pintada em 1994 e remontada hoje com um desenho de 2008)

One (in hungarian)

Másnap, meglehetősen betegen, gyomrom tartalmát egy nejlonzacskóba öklendeztem. Rosszindulatúan néztek rám, az együttérzés legkisebb jelét sem mutatták. Hogy lehetséges az, hogy egy másodosztályú utas kihányja az első osztályon bekebelezett ízes lakomát? Először egy szót sem szóltak, majd suttogni kezdtek. A rosszindulatú megjegyzések hallgatása helyett inkább eltakarítottam a zacskót, és integettem a tengernek, üres gyomorral.

(Thank you!)

Sete (Seven)

Com o coração a bater largo saltei para dentro da noite. Engoli o ar frio da madrugada para manter vivo o ritmo da pedalada. Como um obstinado bootleger cruzei o negrume da Serra de Monfurado e tive visões como só a noite as pode dar. Rolei na companhia da Brigitte sobre uma estrada lenta até alcançar o primeiro objectivo da curta viagem. Vi o dia de cor malva a nascer redondo do outro lado do calcanhar do mundo. Tinha a noite cumprida e a pesar nos olhos quando desci da locomotiva. Esperei, numa estação de caminho-de-ferro saída de uma história antiga, pela ligação comendo laranjas e bebendo café. Finalmente, de novo num comboio com destino ao Sul adormeci na cadência da máquina. Apeei-me perto do mar e voltei a rolar por um caminho agrícola que me levou pela serra algarvia abaixo. Encontrei, por fim, o Arade verde exausto. A estrada poeirenta encenou o fim da minha viagem à entrada de um portão de pedra quando a Brigitte deixou de ser uma bicicleta. Cheguei, disse aos travões em u…

Seis (Six)

Devido ao inverno o mundo fica por vezes sem sombra. Macilento, decorre por imposição da física e de todas as regras com que a ciência se dedica a demonstrar aquilo que prova como certo. Tudo fica mais cinzento nos dias de chuva, eu sei disso. (Encolho as pernas contra o peito e deixo-me ficar para ali mais um instante sentado enquanto me invade o silêncio que tem a forma de uma pêra, de uma mulher vista de costas como uma amêndoa. De um olho fechado como um olho fechado. De um sexo feminino como um fruto cheio de botões de punho. Como um raio de luz ou, o infinito perfeito. Tudo o mais que me assalta é o silêncio estreito da manhã que presencio. É como comer romãs com a boca vermelha). Lembro-me de um rio que era um espelho de água e de não lhe poder nadar. De um rio muito plano onde navegavam coisas. Destroços de armadas de esferovite, frigoríficos mutilados, ratos gigantes e foguetes soviéticos. É disto que me lembro. E também dos monstros de lama que saíam da água durante a noit…

Cinco (Five)

Sei cá bem ao que venho. Sei muito bem. Levo a cabeça num pensar de sonho enquanto rodopio o meu pé na terra seca que o Verão deu em queimar. É como se fosse um limite sobre outro limite. Sei cá bem ao que venho, por isso vou traçar uma circunferência em forma de sola de poesia e fazer circular a minha ideia na coisa que estou a desenhar na terra. É tudo por causa dos preconceitos. Faço, assim, um círculo no pó da terra. Está quase, agora é só juntar a extremidade do risco que o calcanhar linear traz atrás de si ao outro risco que descansa. E quando tudo se finar na sua forma espero ver o vento a soprar sobre cama da terra o pó aos olhos, do chão ao ar, um círculo de pó no ar. Posso pelo menos acrescentar que algumas coisas deste tempo merecem outra leitura, menos enfadonha e um pouco mais ridícula. A ser arte é aquilo que é, senão é nada. Bom, vou para sul a enganar as botas de borracha que andam pelo seu pé porque este ano foi diferente em tudo. Vou para Sul mais um nada de tempo a…