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Mensagens

Seis (Six)

Devido ao inverno o mundo fica por vezes sem sombra. Macilento, decorre por imposição da física e de todas as regras com que a ciência se dedica a demonstrar aquilo que prova como certo. Tudo fica mais cinzento nos dias de chuva, eu sei disso. (Encolho as pernas contra o peito e deixo-me ficar para ali mais um instante sentado enquanto me invade o silêncio que tem a forma de uma pêra, de uma mulher vista de costas como uma amêndoa. De um olho fechado como um olho fechado. De um sexo feminino como um fruto cheio de botões de punho. Como um raio de luz ou, o infinito perfeito. Tudo o mais que me assalta é o silêncio estreito da manhã que presencio. É como comer romãs com a boca vermelha). Lembro-me de um rio que era um espelho de água e de não lhe poder nadar. De um rio muito plano onde navegavam coisas. Destroços de armadas de esferovite, frigoríficos mutilados, ratos gigantes e foguetes soviéticos. É disto que me lembro. E também dos monstros de lama que saíam da água durante a noit…

Cinco (Five)

Sei cá bem ao que venho. Sei muito bem. Levo a cabeça num pensar de sonho enquanto rodopio o meu pé na terra seca que o Verão deu em queimar. É como se fosse um limite sobre outro limite. Sei cá bem ao que venho, por isso vou traçar uma circunferência em forma de sola de poesia e fazer circular a minha ideia na coisa que estou a desenhar na terra. É tudo por causa dos preconceitos. Faço, assim, um círculo no pó da terra. Está quase, agora é só juntar a extremidade do risco que o calcanhar linear traz atrás de si ao outro risco que descansa. E quando tudo se finar na sua forma espero ver o vento a soprar sobre cama da terra o pó aos olhos, do chão ao ar, um círculo de pó no ar. Posso pelo menos acrescentar que algumas coisas deste tempo merecem outra leitura, menos enfadonha e um pouco mais ridícula. A ser arte é aquilo que é, senão é nada. Bom, vou para sul a enganar as botas de borracha que andam pelo seu pé porque este ano foi diferente em tudo. Vou para Sul mais um nada de tempo a…

Quatro (Four)

( A proposito de "O nascimento da cona contado por um simples ponto vermelho-flor em trânsito sobre as águas de um lago, artérias e galerias de um corpo ou, a mulher lagarto tal como a vi e pintei nesse dia em que nada neguei")

Sonetti Lussuriosi di Pietro Aretino

I

Fottiamci, anima mia, fottiamci presto,
Perché tutti per fotter nati siamo,
E se il cazzo adori, io la potta amo,
E saria il mondo un cazzo senza questo. E se post mortem fotter fosse onesto,
Direi: Tanto fottiam, che ci moiamo,
E di là fotterem Eva e Adamo,
Che trovorno il morir sì disonesto. Veramente egl'è ver, che se i furfanti

Três (Three)

Estava deitado na cama de um quarto de hotel quando o telefone tocou. Atendi sibilando uma espécie de palavra que deve ter soado a um "estou" grave e lento que me depositou dou outro lado da conversa. A chamada não me era destinada mas, ainda assim, ouvi toda uma considerável palestra sobre empadas que estavam a cozer no forno. Fiquei a saber que o assunto era o centro de um agudo trava-contas familiar sob os auspícios da culinária. Escutei deitado a questão das empadas de peru preto. E como não sabia que os havia de outras cores o meu dia ganhou outro ressalto. O monólogo continuou até que adormeci no calor da estufa que imaginei a cozer empadas, infelizmente, sem saber como tudo acabou. Por vezes ficamos sem saber como tudo se acaba. Parece que acaba e é tudo.

Dois (Two)

Apenas pelo Natal se davam tréguas às dores. Saíam dos baús como as jóias e as relíquias da família e apareciam a brilhar nos distintos peitos das tias e dos tios e das afilhadas e dos restante elementos comensais que naquela altura se juntavam a comemorar a efeméride. Estas coisas que trazíamos ao peito como distintivo de família usava-mo-las a nosso bel-prazer, assim como outras mazelas mais do domínio geral, os padecimentos, os ais variados e assimétricos, as nossas pequenas enfermidades e o resto que são as cores com os que os outros se pintavam. Tudo cabia à nossa mesa dado que não sabíamos ao tempo distinguir, tal como ainda hoje o não sabemos, o riso do choro. Chorávamos a rir. Ríamos pelos outros quando também chorávamos. Para nós era tudo a mesma coisa, o riso e o choro. Habe nun ach! Philosophie... É o grito inicial do monólogo do velho Doutor Fausto na tragédia de Goethe que aqui deixo ficar. Éramos, sem o sabermos, seus filhos dilectos. Recapitulando as áreas do saber e a …

Um (One)

Ao segundo dia, enojado como estava, vomitei sem alegria para dentro de um saco de plástico todas as refeições ali recebidas. Olharam-me com estranheza, não com indiferença. Como poderia eu, um simples viajante de segunda classe, neste luxurioso navio, ter vomitado as iguarias que me ofereceram na classe superior. De soslaio acabaram por se calar. Não dei ouvidos aos rumores e fiz o meu percurso de saco de plástico na mão contendo o vomitado. E assim, saudei amarelo o mar e lancei-lhe o meu estômago vazio.

On the second day, sickened as I was, I threw up unhappy into a plastic bag all the meals I'd been offered there. They look at me with awkwardness, showing no indifference. How could a mere second-class traveler, in this luxurious vessel have vomited the delicacies which were offered to him in first-class? With an askance attitude they became silent. I didn´t listen to rumours and made my way handling the plastic bag containing the vomit. Then, pallid, I salluted the sea and dump…